quinta-feira, 1 de abril de 2010

Arado



Era só um menino de pouca idade, mas com faculdade para adquirir carta de motorista e votar pra presidente. Chegou, entrou, embalou-se na rede da sala invadiu e ocupou cada espaço disponível. Meu Deus foi assim mesmo. E eu, expectadora atônita das ações desse infante que quebrou todas as minhas vidraças e sem chaves abriu todas as amarras de minhas correntes. Rasurou as páginas de meu livro em branco. Em branco, só até a sua chegada agora carecer todos os dias de páginas novas, algumas recheadas de gravuras.
Água por favor, mas mande-me só água de chuva pra que eu possa apreciar ele ainda  moleque, correndo pelo quintal nu em pêlo, molhando-se de madrugada na biqueira da alta casa,  destemido de qualquer perigo.
Despudorado e premeditado oferece-me o corpo para secar. Não só o belo corpo esguio  seca-se na toalha com cheiro de limpa, minha garganta idem. Sim, sim, ressecada ali pela falta de ar, que o momento me rouba. Mas minhas mãos gélidas  são percebidas por ele de forma inevitável. E ali, brota bilateralmente o melhor pecado!
Pouco satisfeito em quebrar minhas vidraças, atravessar o rio, e me presentear com lentes novas para que eu possa rever velhos conceitos. Carrega-me prazerosamente por estradas jamais trilhadas por mim.  Furtando-me de todo e qualquer percentual de juízo existente em meu ser. E eu sigo, sem querer saber do fim da estrada. Deixo cuidadosamente o relógio em casa.

Ah, como eu gostaria de ter previsto tudo isso, se me fosse possível saber tudo antes, do primeiro alinhavo nos retalhos de nossa história, se eu soubesse... Ah, se eu soubesse!!!
Eu, nada faria de diferente, somente abriria com maior rapidez a porta de minha vida e o deixaria entrar com sua grafite, que desenha narrativa. E assim já teria experimentado essa loucura-delícia de  sentir a eficácia bruta de um arado revirando a terra!


Texto: Vanusa Babaçu

Um comentário:

João Henrique Salles disse...

Esse menino... ARADO!

lindo texto